"O HERÓI DE APENAS UMA FACE"

DESCOLONIZANDO O MONOMITO NO CINEMA

Autores

  • Lune Pilipczuk Faap - Centro Universitário Armando Álvares Penteado

Palavras-chave:

Monomito, Herói, Roteiro, Cinema, Decolonialidade

Resumo

Este artigo critica a hegemonia cultural do monomito de Joseph Campbell na indústria cinematográfica, cuja forma narrativa da jornada do herói foi proposta no livro O Herói de Mil Faces. Questiono a autoproclamada universalidade do monomito, apontando seu modelo monolítico como causa do apagamento de culturas narrativas diversas. Para tal, realizo uma ponte com o conceito de monoculturas da colonização enquanto parte do violento projeto de hegemonização cultural e etnogenocídio. Posiciono o monomito como violenta forma de monocultura no campo das narrativas cinematográficas, que colonizou o cinema e impôs valores norte-americanos, neoliberais, coloniais, racistas e cisheteromasculinos. Para complemento da análise, cito pesquisas que propõe o reconhecimento de formas narrativas diversas não ocidentalizadas que resistem há centenas de anos, adotando uma postura defensiva contracolonial. É urgente a necessidade de apontar para os efeitos colonizatórios do monomito, carregados de valores culturais norte-americanos que se auto intitulam enquanto universais. O estudo encoraja que sejam realizadas novas pesquisas críticas decoloniais ao monomito no campo do cinema, de modo a abrir espaço para a pluralidade, a valorização de nuances culturais e o protagonismo de povos autorrepresentados.

Biografia do Autor

Lune Pilipczuk, Faap - Centro Universitário Armando Álvares Penteado

Lune Pilipczuk é uma pessoa não binária (ela/dela), sapatão, escritora, roteirista, mentora de roteiro, cineasta e estudante de cinema, de 28 anos. Como roteirista, trabalhou nas séries infantis "José Comilão" e "Sara", recorrentes no Top 10 Netflix na América Latina. Como cineasta, é co-fundadora e sócia da produtora "Último Mundo Produções", pela qual realizou diversos curta-metragens, inclusive "Fulano de Tal", com seleção oficial pelo festival de Tiradentes em 2025. Como mentora, atua com consultorias a roteiristas e escritores, auxiliando em livros, séries e longa-metragens. Como escritora, lança em 2025 seu primeiro original infantil, "Tina, a Bolinha Espinhuda", pela editora Ases da Literatura. Cursa cinema na FAAP - Centro Universitário Armando Álvares Penteado, com formação prevista para o fim de 2025. Dentro da instituição, realizou diversas pesquisas acadêmicas que fazem ponte entre a decolonialidade e os estudos críticos de cinema.

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Publicado

2025-12-30

Edição

Seção

Violências e autodefesas