"O HERÓI DE APENAS UMA FACE"
DESCOLONIZANDO O MONOMITO NO CINEMA
Palavras-chave:
Monomito, Herói, Roteiro, Cinema, DecolonialidadeResumo
Este artigo critica a hegemonia cultural do monomito de Joseph Campbell na indústria cinematográfica, cuja forma narrativa da jornada do herói foi proposta no livro O Herói de Mil Faces. Questiono a autoproclamada universalidade do monomito, apontando seu modelo monolítico como causa do apagamento de culturas narrativas diversas. Para tal, realizo uma ponte com o conceito de monoculturas da colonização enquanto parte do violento projeto de hegemonização cultural e etnogenocídio. Posiciono o monomito como violenta forma de monocultura no campo das narrativas cinematográficas, que colonizou o cinema e impôs valores norte-americanos, neoliberais, coloniais, racistas e cisheteromasculinos. Para complemento da análise, cito pesquisas que propõe o reconhecimento de formas narrativas diversas não ocidentalizadas que resistem há centenas de anos, adotando uma postura defensiva contracolonial. É urgente a necessidade de apontar para os efeitos colonizatórios do monomito, carregados de valores culturais norte-americanos que se auto intitulam enquanto universais. O estudo encoraja que sejam realizadas novas pesquisas críticas decoloniais ao monomito no campo do cinema, de modo a abrir espaço para a pluralidade, a valorização de nuances culturais e o protagonismo de povos autorrepresentados.
Referências
ARNAVAS, Francesca; BELLINI, Mattia. Miyazaki's Hybrid Worlds and Their Riddle-Stories: Western Tropes and Kishōtenketsu. Em: Narrative Works, v. 12, n. 1, p. 18-38, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.7202/1111286ar. Acesso em: 10/04/2025.
ASTON, Judith. There’s more to life than the monomyth: multiperspectival approaches to teaching narrative and story in university film and media departments. Em: Media Practice and Education, v. 25, n. 2, p.123-136, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1080/25741136.2024.2331342. Acesso em: 10/04/2025.
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. Tradução: Adail Ubirajara Sobral. São Paulo: Cultrix / Pensamento, 2007 (1989).
CURIEL, Ochy. Construyendo metodologías feministas desde el feminismo decolonial. Em: AZKUE, Irantzu Mendia; LUXÁN, Marta; LEGARRETA, Matxalen; GUZMÁN, Gloria; ZIRION, Iker; AZPIAZU CARBALLO, Jokin (org.). Otras formas de (re)conocer: reflexiones, herramientas y aplicaciones desde la investigación feminista. Bilbao: Hegoa, 2014, p. 45–60.
GOUGH-BRADY, Catherine. The heroic character, the neo-liberal productive citizen, and the feminist filmmaker. Em: Media Practice and Education, v. 25, n. 2, p. 149–159, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1080/25741136.2024.2324076. Acesso em: 10/04/2025.
GROSFOGUEL, Ramón. Para descolonizar os estudos de economia política e os estudos pós-coloniais: transmodernidade, pensamento de fronteira e colonialidade global. Em: Revista Crítica de Ciências Sociais, v. 80, p. 115-147, 2008. Disponível em: https://doi.org/10.4000/rccs.697. Acesso em: 10/04/2025.
VOGLER, Christopher. A jornada do escritor: estrutura mítica para escritores. 3. ed. Tradução: Petê Rissatti. São Paulo: Aleph, 2015 (1992).
VOGLER, Christopher. Joseph Campbell Goes To the Movies: The Influence Of The Hero’s Journey In Film Narrative. Em: Journal of Genius and Eminence, v. 2, n. 2, p. 9–22, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.18536/jge.2017.02.2.2.01. Acesso em: 10/04/2025.
HIPAMAALHE, Francy Fontes Baniwa; MATSAAPE, Francisco Luiz Fontes. Umbigo do mundo: mitologia, ritual e memória. Rio de Janeiro: Dantes Editora, 2023.
HOOKS, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. 2. ed. Tradução: Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017 (1994).
KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Tradução: Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019 (2008).
KRENAK, Ailton; CAMPOS, Yussef. Lugares de origem. São Paulo: Jandaíra, 2021.
LE GUIN, Ursula K. A teoria da bolsa da ficção. Tradução: Luciana Chieregati e Vivian Chieregati Costa. São Paulo: n-1 edições, 2021 (1986).
MINH-HA, Trinh T. Not You/Like You: Postcolonial Women and the Interlocking Questions of Identity and Difference. Em: Inscriptions, v. 3-4, 1988. Disponível em: https://culturalstudies.ucsc.edu/inscriptions/volume-34/trinh-t-minh-ha/. Acesso em: 10/04/2025.
NÚÑEZ, Geni; VILHARVA, Natanael. Artesanato narrativo e as teias da palavra: perspectivas Guarani de resistência. Em: Revista Feminismos, v. 10, n. 23, 2022. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/feminismos/article/view/45165. Acesso em: 10/04/2025.
NÚÑEZ, Geni. Da cor da terra: etnocídio e resistência indígena. Em: Revista Tecnologia & Cultura, edição especial, p. 65–73, 2021a. Disponível em: https://www.cefet-rj.br/attachments/article/195/revista_especialPPRER.pdf. Acesso em: 10/04/2025.
NÚÑEZ, Geni. Monoculturas do pensamento e a importância do reflorestamento do imaginário. Em: Revista ClimaCom, Diante dos Negacionismos | Pesquisa – Ensaios, ano 8, n. 21, 2021b. Disponível em: https://climacom.mudancasclimaticas.net.br/monoculturas-do-pensamento/. Acesso em: 10/04/2025.
NÚÑEZ, Geni. Perspectivas Guarani sobre binarismos da colonização: caminhos para além das monoculturas. Em: Tempo e Argumento, v. 15, n. 40, e0101, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.5965/2175180315402023e0101. Acesso em: 10/04/2025.
PELÚCIO, Larissa. Subalterno quem, cara pálida? Apontamentos às margens sobre pós-colonialismos, feminismos e estudos queer. Em: Contemporânea - Revista de Sociologia da UFSCar, v. 2, n. 2, p. 395-418, 2012. Disponível em: https://www.contemporanea.ufscar.br/index.php/contemporanea/article/view/89. Acesso em: 10/04/2025.
PINHEIRO, Sophia. Aquilo que é sonhado muda a estrutura das coisas: Sentir, pensar e agir para reencantar e perturbar o cinema com mulheres originárias. Tese (doutorado) - Universidade Federal Fluminense, Instituto de arte e comunicação social, programa de pós graduação em cinema e audiovisual, Niterói, 2023. Disponível em: https://ppgcine.cinemauff.com.br/wp-content/uploads/2024/02/Sophia-Pinheiro.pdf. Acesso em: 10/04/2025.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, Eurocentrismo e América Latina. Em: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (Clacso), p. 117–142, 2005. Disponível em: https://biblioteca-repositorio.clacso.edu.ar/bitstream/CLACSO/14118/1/12_Quijano.pdf. Acesso em: 10/04/2025.
REYNOLDS, Kendra. Re-examining the “Hero’s Journey”: A critical reflection on literature selection for affective bibliotherapy programs on resilience. Em: World Literature Studies, v.15, n.2, p. 113–125, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.31577/WLS.2023.15.2.10. Acesso em: 10/04/2025.
SONNENBURG, Stephan; RUNCO, Mark. Introduction: Joseph Campbell special issue. Em: Journal of Genius and Eminence, v. 2, n. 2, p. 1–8, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.18536/jge.2017.02.2.2.01. Acesso em: 10/04/2025.
WA THIONG’O, Ngugi. Decolonising the mind: the politics of language in African literature. Harare: Zimbabwe Publishing House, 1994 (1986).
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2025 Lune Pilipczuk (Autor)

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.
Licença e Copyright
Licença
Os trabalhos publicados estão sob uma licença: [CC.BY-NC.ND] da Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Copyright
- O(s) autor(es) autoriza(m) a publicação do artigo na revista.
- O(s) autor(es) garante(m) que a contribuição é original e inédita e que não está em processo de avaliação em outra(s) revista(s).
- A revista não se responsabiliza pelas opiniões, ideias e conceitos emitidos nos textos, por serem de inteira responsabilidade de seu(s) autor(es).
- É reservado aos editores o direito de proceder ajustes textuais e de adequação do artigos às normas da publicação (Sem alterar, fundamentalmente, o conteúdo do texto).
Os Autores que publicam nesta revista concordam com os seguintes termos:
- Autores mantêm os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Creative Commons Attribution License, permitindo o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria do trabalho e publicação inicial nesta revista.
- Autores têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não-exclusiva da versão do trabalho publicada nesta revista (ex.: publicar em repositório institucional ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial nesta revista.
- Autores têm permissão e são estimulados a publicar e distribuir seu trabalho online (ex.: em repositórios institucionais ou na sua página pessoal), já que isso pode gerar alterações produtivas, bem como aumentar o impacto e a citação do trabalho publicado.