AMOLADAS A PEDRAS-DE-RIO E ÁGUAS
ENCRUZILHADAS DE MULHERES, LAVANDERIAS E FAMÍLIAS NA TERESINA PERIFÉRICA
Palavras-chave:
Aguentar; Mulheres Lavadeiras; Cotidiano.Resumo
Aprendi com o pensamento feminista negro que, para refletirmos a experiência da mulher negra na realidade colonial e pós-colonial, passa pelo desvelamento da “imagem de controle”, sob o estereotipo de “mulas do mundo” (que tudo “aguentam” e “suportam”), vistas como anomalias – animais (DAVIS, 2016 COLLINS, 2019). Em particular, ao se tratar da experiência histórica da mulher negra brasileira, Sueli Carneiro (2012) e Lélia Gonzalez (2020), advertem como a coisificação e a apropriação social das afrodescendentes encontram-se expressos nas construções das figuras da mulata, da doméstica e da mãe preta, revelando como os ideários de progresso e desenvolvimento de um país foram erigidos pelas iniquidades raciais e sociais de grupos específicos. Este artigo busca mobilizar a categoria “aguentar”, que se espraia nas falas e nos cotidianos de mulheres lavadeiras – Bindita, Josefa, Anastacia, Fátima,Carmelita, Ana e Lúcia -, de uma zona periférica de Teresina, Piauí, enquanto um movimento potente dinamizado pelas forças particulares destas sujeitas como formas de reabitar espaços de violências da vida cotidiana. É desta ambivalência que permeia o aguentar, apontado pelas feministas negras como dispositivo disciplinador e domesticador que tenta confinar e constranger corpos negros, transformando sobrevivência em obrigação, ao passo que para as lavadeiras o aguentar expressa-se como uma arte e tática antinecropolítica (MBEMBE, 2016) em defesa das vidas de seus descendentes - que está etnografia se direciona. Intento fiar as contribuições de intelectuais negras afro-americanas e brasileiras às interpretações traçadas por Veena Das (2020, p. 27) sob “os intricados quadros de fazer e refazer um mundo”. Argumento que esta perspectiva analítica lançada por Das (2020), ao ler, escrever e reescrever sobre a capacidade humana em dar continuidade ao percurso da vida em ambientes desmoronados, como me revelaram as lavadeiras sob o prisma do aguentar em seus cuidados copartidos com seus familiares, suas vizinhanças e com suas práticas religiosas devocionais, podem revelar a possibilidade de constituir recomeços onde a vida seja vivível.
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