TEMPOS FEMININOS
PRÁTICAS DE CUIDADO, REPARAÇÃO E MEMÓRIA DAS MULHERES EM ABYA YALA
Palavras-chave:
Têxteis de Resistência, Cuidado, Memória, Reparação, América LatinaResumo
O presente artigo parte da ideia de que o cuidado constitui um dos primeiros marcos civilizatórios em oposição à percepção de que o progresso técnico e tecnológico é condição si ne qua non para o entendimento de civilização. Propõe-se uma reflexão crítica acerca das temporalidades que organizam a história e seus valores. Em contraposição à noção de um “tempo masculino”, associado à aceleração, à produção e ao avanço tecnológico, investiga-se a construção e a desvalorização de um “tempo feminino”, historicamente vinculado ao cotidiano, à manutenção da vida e às práticas de cuidado e reparação.
Busca-se evidenciar como mulheres transformam práticas frequentemente invisibilizadas e naturalizadas como femininas e domésticas em formas de resistência política e elaboração da memória, especificamente ubicadas na América Latina e no estudo dos artefatos têxteis produzidos nas ditaduras da segunda metade do século XX, tais como as arpilleras no Chile, a cueca sola - dança que é marcada pela ausência do par - e as rondas das Madres de Plaza de Mayo Nesses contextos, o têxtil, o gesto repetido e o encontro coletivo operam como dispositivos de denúncia e de inscrição de narrativas que escapam aos registros oficiais.
Argumenta-se, que o cuidado, não é uma característica naturalizada ou secundária e constitui naqueles contextos uma prática radical de enfrentamento ao apagamento. Ao insistir em evidenciar a presença (da ausência), demandar a memória e reparação, essas práticas reinscrevem o passado no presente e tensionam as lógicas de progresso que sustentam tanto a violência quanto o esquecimento.
Referências
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